Servidoras públicas relatam os desafios de conciliar maternidade, trabalho e a sobrecarga invisível e cotidiana
O cotidiano de muitas mães trabalhadoras começa antes mesmo do toque do despertador. Entre preparar o café, organizar mochilas, acompanhar horários escolares, mulheres convivem diariamente com uma jornada que ultrapassa o expediente formal.
No Rio Grande do Norte, essa é a realidade de servidoras públicas que tentam equilibrar trabalho, família, vida pessoal e responsabilidades domésticas. No Instituto de Defesa e Inspeção Agropecuária (IDIARN), o cenário acompanha mulheres como Amanda Guedes e Débora Villar. Servidoras estaduais, mães de filhos em idade escolar e profissionais com trajetórias edificadas no serviço público, as manhãs de ambas começam pouco depois das 5h.
“O primeiro turno é totalmente doméstico: preparar o café, organizar o material escolar do meu filho e garantir que o dia dele comece bem estruturado”, resume Amanda, fiscal agropecuária e mãe de Theo, de 7 anos. “Só depois disso é que a chave vira para a servidora pública”, explica.
Débora, também fiscal agropecuária e mãe de Daniel, de 14 anos, e Gabriela, de 12, descreve uma situação semelhante. Acorda às 5h15, organiza a casa, leva os filhos para a escola e segue para o trabalho. “Vida pessoal, o que seria vida pessoal?”, questiona, entre risos.
A Exaustão Invisível
Pesquisa da USP divulgada em 2024 mostrou que 97% das mulheres se sentem sobrecarregadas quase todos os dias. Dados do IBGE apontam que, em 2022, as brasileiras dedicaram, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas. Entre os homens, esse tempo foi de 11,7 horas por semana – pouco mais da metade da carga assumida pelas mulheres.
A exaustão também envolve tarefas invisíveis: administrar horários, imprevistos e demandas do lar e da família. Amanda define essa experiência como “exaustão invisível”. “As pessoas veem a servidora entregando o relatório ou realizando a fiscalização no prazo, mas não veem a noite mal dormida, a preocupação constante com o bem-estar do filho ou a gestão mental de todas as pendências da casa”, afirma.
“No fim, temos que dar conta de tudo”
A dificuldade de equilibrar carreira, maternidade e vida pessoal atravessa a fala das servidoras. Quando os filhos adoecem, a dinâmica se altera completamente. O planejamento do dia é interrompido e o foco no trabalho passa a disputar espaço com a preocupação constante. “Muda tudo. O foco se fragmenta”, resume Amanda. Débora é mais direta: “Preciso me ausentar do trabalho.”
A sobrecarga aparece como elemento ordinário na rotina feminina. É mais regra do que exceção. Ao ser questionada sobre a carga mental de administrar trabalho, filhos e casa, Débora responde: “Não parei pra pensar sobre isso. Porque, no fim, temos que dar conta de tudo. Já senti frustração. Diversas vezes abri mão de algo pessoal. Existe uma cobrança por ser uma esposa e mãe perfeita.”
O tema também aparece quando as servidoras refletem sobre rede de apoio e divisão de responsabilidades dentro das famílias. “O conceito de ajuda precisa ser substituído pelo de corresponsabilidade”, afirma Amanda.
Quando a maternidade redefine a carreira
A maternidade reorganiza trajetórias profissionais, independentemente do vínculo de trabalho. No caso de Débora, a mudança impactou diretamente a dinâmica das atividades exercidas no IDIARN.
Antes da implantação do horário corrido no órgão, ela precisava manter as crianças em período integral na escola para realizar viagens de fiscalização. Com a mudança na jornada, conquistada após ação movida pelo Sinai-RN, a vivência familiar ganhou novo equilíbrio, mas trouxe limitações. “Não pude mais exercer minha atividade mais distante. Sempre em municípios que me permitem retornar a tempo de pegá-los na escola”, relata.
Dados reforçam que essa realidade não é isolada. Estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (2025), apontou que metade das mulheres deixa o mercado de trabalho até dois anos após o nascimento do primeiro filho.
Estabilidade não elimina a sobrecarga
Embora o serviço público represente estabilidade e possibilidade de planejamento familiar, ele não elimina os desafios das mães trabalhadoras. O dia a dia dessas mulheres segue atravessado por demandas contínuas, carga mental e imprevisibilidades.
“A estabilidade é um porto seguro”, afirma Amanda. “Ela oferece a tranquilidade de saber que o sustento da minha família está garantido.”
Amanda explica que um dos maiores desafios é conciliar o rigor das normas e horários do serviço público com situações inesperadas envolvendo o filho. Débora relata dificuldades semelhantes e destaca que ainda há pouco espaço para discutir maternidade e trabalho dentro das instituições. “Não se discute sobre isso”, resume.
Ela também defende políticas de apoio para mães com crianças pequenas, especialmente aquelas que trabalham em jornada integral. Entre as medidas apontadas, está a criação de suporte no contraturno escolar para reduzir custos e auxiliar na rotina das famílias.
Entre o orgulho e a renúncia: o que move as mães
Amanda e Débora compreendem que discutir maternidade vai além de experiências individuais e dificuldades impostas por jornadas diversas e nem sempre visíveis. Ambas associam a experiência de ser mãe a mudanças profundas na forma de enxergar o tempo, as prioridades e a própria vida.
Amanda afirma que a chegada do filho transformou sua relação com o cotidiano e com a profissão. “Aprendi a resolver problemas com rapidez porque o tempo se tornou um recurso precioso”, conta.
Débora resume esse sentimento em uma palavra: orgulho. “Porque é por eles que damos nosso melhor todos os dias”, destaca ao falar dos filhos Daniel e Gabriela.